Desenhar ao ar livre

Por Melina Furquim*

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(imagem: nossos alunos em experiência direta orientados por Melina Furquim)

Muitos alunos recorrem a mim com interesse em desenhar e/ou  pintar paisagens. Mas percebo que poucos deles param para refletir sobre o que ela é, o que significa, como se constitui.

O mais comum é vê-los pesquisando uma imagem na internet ou em livros para chegar a uma referência de paisagem ou modelo ideal a ser desenvolvido nas aulas.

Mas existe uma grande diferença entre representar uma paisagem imaginada, uma paisagem a partir de uma fotografia e  a paisagem ao ar livre.

Atualmente nosso mundo se encontra cercado de imagens, as quais podem anteceder ou mesmo substituir a experiência direta com o mundo e os objetos. Um clássico exemplo disso é a criança que reconhece um desenho de um elefante, uma fotografia de um elefante mas nunca sequer viu um; ou mesmo as milhares de pessoas que conhecem a história da arte através da representação das obras antes de ter o contato direto com as mesmas. Quem nunca viu a Torre Eiffel ou as Pirâmides de Gizé? Não significa que todos tenham ido lá.

Isto é uma consequência da nossa sociedade contemporânea. Não cabe aqui neste momento discutir se isto é bom ou ruim. Deixemos o assunto para um próximo post.

Voltemos à nossa paisagem…

A paisagem imaginada é aquela que se constrói através das experiências de cada indivíduo, através da percepção, da memória e de sonhos e desejos. Pode ser construída culturalmente – o lugar ideal, a casinha no campo, paisagens de ficção, etc – e se relaciona diretamente com a linguagem do desenho/pintura pois é uma paisagem que só existe no plano abstrato, imaginativo e na representação. Ou seja, ela se faz na pintura ou no desenho, não existe no mundo real.

Já a paisagem fotográfica é uma leitura, através de um dispositivo óptico,  de algum lugar do mundo. Portanto, uma paisagem já representada. Isto pode ser redutivo em aspectos de experiência de cor, volumes e texturas, pois ao mesmo tempo que “facilita” a observação e tradução para o desenho, pode limitar a interpretação a uma leitura já feita por outra pessoa.

Isto porque a perspectiva e a profundidade do mundo  já se encontram traduzidas para o plano bidimensional, e o recorte já foi feito pelas margens do negativo ou do “crop”.

Por último, mas jamais menos importante, a paisagem obtida através da experiência direta é aquela em que o artista ou aluno sai en plein air  (ao ar livre,  literalmente) e seleciona seu motivo. Escolhe o que vai e o que não vai incluir em sua paisagem, se aproxima e se distancia. Tem olhar de 360 graus, sente o vento, o calor do sol e ganha muitos mais tons e cores que a luz natural pode proporcionar.

(imagem: nossos alunos em experiência direta orientados por Melina Furquim)

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(imagem: nossos alunos em experiência direta orientados por Melina Furquim)

Desenhar e pintar uma árvore, vendo uma árvore é muito mais rico que vendo uma fotografia de uma árvore, pois ali o observador pode tocar, sentindo as diferentes texturas de cada parte. Pode ter uma visão tridimensional do objeto que talvez esteja balançando por conta de uma brisa, ou que muda de cores quando uma nuvem entra na frente do sol.

Estes aspectos todos devem ser absorvidos por aquele que desenha, ampliando assim nossa percepção para uma representação não necessariamente neoclássica, com um ponto de vista fixo, uma composição que deva seguir fórmulas instauradas.

Muitos alunos possuem dificuldade ao se deparar com tantas texturas,  volumes e cores, com tanta liberdade. Isto é absolutamente natural, e é quando desenhar se transforma num ato não só de representar, mas também de compreender o mundo.

Muitos artistas fizeram isto durante a história, como Cézanne, que defendia que os olhos e o corpo se movimentam, desconstruindo a representação estática da paisagem neoclássica. Ou os famosos impressionistas que ansiavam captar a luz efêmera e a atmosfera, observando a quantidade de cores existentes nas luzes e nas sombras como Claude Monet e Renoir.

As origens desta atitude se encontram na chamada escola de Barbizon, um movimento artístico que se sucedeu entre os anos de 1830 e 1870, integrado por um conjunto de pintores franceses que se estabeleceram próximo ao povoado de Barbizon deixando Paris, numa atitude de aberta oposição ao sistema vigente. Estes integram o Realismo pictórico francês, entre os artistas Jean-Baptiste Camille CorotJean-François Millet e Théodore Rousseau.

Claro que existem limitações no cotidiano, de tempo, de espaços, e não podemos fazer isto com a frequência com que gostaríamos. A maioria de nossas aulas é feita dentro da sala. Mas permitir-se, vez em quando, a sair desse espaço com luz artificial, carteiras e cadeiras, é, definitivamente, uma atitude necessária.

Estes registros foram feitos no dia 08/04/2015, durante uma saída. Os alunos se distribuíram para escolher seus motivos e desenharam durante, aproximadamente, 2 horas. Em seguida retornamos à escola para discutir sobre a experiência, dificuldades, vantagens, possibilidades e novos projetos a partir destes.

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Obrigada aos alunos Cibele, Fernanda, Marcelo e Francisco por permitirem que suas imagens apareçam por aqui!

Vamos encerrando este post, mas como o assunto é muito extenso e permite incontáveis desmembramentos, ficam abaixo algumas leituras para uma reflexão mais profunda:

A Invenção da Paisagem, de Anne Cauquelin, Martins Fontes

A dúvida de Cézanne, de Merleau-Ponty. Ensaio de 1945

Linha de horizonte: por uma poética do ato criador, Edtih Derdyk. Ed. Intermeios

* Melina Furquim é Professora, Ilustradora e Artista Visual formada em Educação Artística (licenciatura) e em Artes Plásticas (Formação livre).

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